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terça-feira, 24 de abril de 2018

Genocídio cambojano

O genocídio cambojano foi promovido pelo governo comunista do Khmer Vermelho, liderado por Pol Pot no Cambodja, entre 1975 e 1979. Esse genocídio foi uma das consequências das acções tirânicas impostas no período com a aplicação de uma utopia agrária, que resultou em uma violenta repressão, marcada por trabalhos forçados, torturas e execuções. Estima-se que, pelo menos, 1,5 milhão de pessoas tenham morrido durante essa época nesse país asiático.



Khmer Vermelho e Pol Pot

O Khmer Vermelho era um dos partidos que haviam sucedido o antigo Partido Comunista da Indochina. Desde as eleições de 1955, que garantiram o governo a Norodum Sihanouk, Pol Pot, membro do Khmer Vermelho, passou a defender a tomada do poder no Camboja a partir da luta armada.

Ao tornar-se líder desse partido em 1960, Pol Pot, na clandestinidade, passou a buscar apoio para organizar uma guerrilha para colocar em prática seus objectivos quanto ao país. Durante essa época, foi iniciada uma rebelião contra o governo de Sihanouk, no entanto, foi a ocorrência de outros dois eventos determinantes que possibilitou levar o Khmer Vermelho ao poder do Cambodja.



O primeiro evento foi o golpe militar, liderado por Lon Nol e apoiado pelos Estados Unidos, contra o governo de Sihanouk em 1970. Esse golpe fez com que Sihanouk formasse uma coalizão com o Khmer Vermelho para que, juntos, derrubassem o governo de Lon Nol. O outro evento foi marcado pelos bombardeios realizados pelos Estados Unidos no Camboja, como desdobramento da Guerra do Vietnã.

O fortalecimento do Khmer Vermelho a partir desses dois eventos intensificou a guerra civil no país e possibilitou a esse partido tomar o poder em 1975, quando foi conquistada a capital, Phnom Penh. Com isso, Pol Pot assumiu o governo e colocou em prática sua utopia agrária, que iniciou um período de repressão, torturas e execuções no Cambodja.

Durante os anos em que Pol Pot esteve no poder, foi realizado o esvaziamento das cidades cambojanas a partir da migração da população para fazendas coletivas, onde era submetida a um regime de trabalho forçado. Além disso, houve o fechamento de hospitais, escolas, bibliotecas e monastérios, entre outros, bem como foram abolidos a propriedade privada, os salários e foi iniciada uma intensa perseguição contra minorias étnicas e grupos intelectualizados da sociedade.

Genocídio cambojano

Com a instituição do governo comunista sob a liderança de Pol Pot, foi imposta uma utopia agrária que promoveu o esvaziamento das cidades cambojanas e obrigou a população a instalar-se em fazendas colectivas, onde devia trabalhar durante quase todo o dia. Muitas pessoas migravam constantemente por ordens do Khmer Vermelho e eram obrigadas a realizar longas caminhadas.



O governo cambojano também promoveu o fechamento e isolamento total do Camboja, com as fronteiras e embaixadas estrangeiras fechadas. Todos que soubessem falar algum idioma estrangeiro eram presos e poderiam ser mortos. Além disso, professores e estudantes universitários eram perseguidos. Pessoas que demonstrassem características de ocidentalização também eram presas pelo governo.

Houve ainda expurgos internos no Khmer Vermelho. Membros que manifestassem discordância quanto às decisões tomadas por Pol Pot ou membros do partido que mantivessem contato com o Partido Comunista Vietnamita eram presos. No começo da década de 1970, por exemplo, cerca de 900 membros do partido que possuíam laços com comunistas vietnamitas foram presos.

Além disso, as minorias étnicas existentes no Camboja foram alvo da repressão do Khmer Vermelho. Nessa época, cerca de 15% da população cambojana pertencia a alguma minoria étnica existente no país, formada por vietnamitas, chineses e pelos cham.

O governo de Pol Pot realizou a expulsão de mais de 100 mil vietnamitas do país e promoveu o que foi caracterizado com um sistemático genocídio racial: de 10 mil a 20 mil vietnamitas foram mortos, o que correspondia praticamente à totalidade das pessoas dessa etnia que haviam permanecido no país.



Os chineses também foram um grupo que foi intensamente perseguido. Identificados como o estereótipo dos trabalhadores urbanos pelo Khmer Vermelho, os chineses foram sujeitos a condições piores que o restante da população. Portanto, essa perseguição a esse povo não aconteceu por questões raciais, mas por ser identificado com o trabalho urbano. Estima-se que mais de 200 mil chineses tenham morrido em consequência das péssimas condições a que foram sujeitos.

Os cham, outra etnia existente no Camboja, foram proibidos de utilizar seus trajes típicos, falar seu próprio dialeto e praticar sua religião, o islamismo. Milícias do Khmer Vermelho atacavam sistematicamente aldeias habitadas pelos cham e promoveram a destruição de cerca de cem delas. Ao todo, aproximadamente 100 mil cham morreram nesse período.

Grupos religiosos no Camboja também foram perseguidos, principalmente os budistas. Monastérios budistas foram fechados pelo governo, seus monges foram presos e milhares desses religiosos foram mortos. A perseguição ao budismo fez com que, em 1977, já não existisse nenhum monastério em funcionamento no país. Outras religiões minoritárias também sofreram repressão.

A tirania imposta por Pol Pot no Cambodja encerrou-se em janeiro de 1979, quando o governo cambojano foi derrubado após o país ser invadido pelo exército vietnamita. Com o fim do seu governo, foi possível precisar as consequências dele para o país. As estimativas apontam que, pelo menos, 1,5 milhão de pessoas morreram, número que pode ainda ter alcançado 2,5 milhões.

FONTE:
https://historiadomundo.uol.com.br/idade-contemporanea/genocidio-cambojano.htm

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

SAMORA MACHEL

Samora Machel morreu há mais de 30 anos, as causas da queda do avião que vitimou este revolucionário imprevisível e extrovertido permanecem um mistério

Samora Machel morreu há mais de 30 anos, as causas da queda do avião que vitimou este revolucionário imprevisível e extrovertido permanecem um mistério. O primeiro Presidente moçambicano assumiu-se marxista e abraçou Ronald Reagan em plena guerra fria, promoveu nacionalizações e admitiu ser inaceitável o Estado vender agulhas, odiou o “apartheid” e almoçou com ele, assobiava e repreendia camaradas publicamente.

 


Trinta anos após a morte do primeiro Presidente de Moçambique, Samora Machel, num desastre aéreo, as causas continuam por esclarecer, apesar de as autoridades moçambicanas manterem que foi um atentado executado pelo ex-regime do "apartheid".

Logo após a queda do Tupolev 134, de fabrico russo, em 19 de outubro de 1986, na localidade sul-africana de Mbuzini, os governos de Moçambique, país de registo da aeronave, África do Sul, local da queda, e da União Soviética constituíram uma comissão de inquérito para apurar as causas do desastre.


Divergências em relação aos procedimentos da investigação terão levado à sua interrupção, mas Moçambique e União Soviética apontaram o Governo do "apartheid" como responsável pela queda do aparelho e a África do Sul imputou por sua vez o desastre a um cúmulo de erros da tripulação russa.
Maputo e Moscovo basearam as suas conclusões na alegada existência de um rádio-farol falso que terá sido colocado na véspera do acidente em Mbuzini pelos serviços de segurança sul-africanos, para desviar o avião do Aeroporto Internacional de Maputo.

Por sua vez, os dirigentes sul-africanos da época argumentavam que as conversas mantidas pelos elementos da tripulação gravadas pelas caixas negras reconduzem à existência de falhas dos pilotos.



Na altura, Moçambique e o Governo sul-africano, dirigido pelo regime de minoria branca do "apartheid", viviam num ambiente de permanente hostilidade, com Maputo a acusar Pretória de apoiar a guerrilha da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana), atualmente o maior partido da oposição moçambicana.

As autoridades sul-africanas de então acusavam, por seu lado, Maputo de albergar militantes do Congresso Nacional Africano (ANC), que lutava contra a política de discriminação na África do Sul, e que é agora partido no poder neste país.

Após a queda do "apartheid", os sucessivos governos do ANC e da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) prometeram várias vezes reabrir as investigações para apurar as causas da queda do avião, mas até agora não se conhece nenhum desenvolvimento em relação a essas iniciativas, muito menos qualquer conclusão.



Além do seu papel na libertação de Moçambique do colonialismo português, a determinação no apoio à luta pela independência do Zimbabué, ao ANC e à Fretilin (Frente Revolucionária de Timor Leste Independente) projetou Machel como um ícone da luta contra a opressão no mundo.

Samora Machel perdeu a vida aos 52 anos, numa altura em que se aproximava do ocidente e dava sinais de distanciamento do marxismo-leninismo, que o seu partido, Frelimo, havia abraçado em 1977.
A escassez do apoio dos aliados do bloco comunista, devido ao declínio económico dos países que compunham este grupo, e a derrocada da economia moçambicana, na sequência da devastadora guerra civil e das calamidades naturais que na altura grassavam o país levaram Samora Machel a iniciar contatos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM).



Os discursos ácidos contra a corrupção, nepotismo, clientelismo e o laxismo, as reprimendas em público contra camaradas do seu próprio partido e o aparente desapego aos bens materiais granjearam-no uma grande admiração no seio das classes sociais mais pobres em Moçambique.

Mas o seu tempo na Presidência da República foi marcado por decisões polémicas como os desterros de supostos improdutivos para campos de reeducação, a aplicação da pena de morte com recursos a fuzilamentos e a manutenção da pena de castigos corporais, uma prática muito repudiada pelos moçambicanos durante o regime colonial português.

Um revolucionário, imprevisível e extrovertido

Quando chegou à Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) em 1963, aos 30 anos, com um curso de enfermagem, poucos se atreveriam a augurar a Samora Machel uma ascensão fulgurante na sua hierarquia.

Quem o conheceu antes de abraçar a causa nacionalista, diz que Machel, filho de camponeses da província de Gaza, sul de Moçambique, demonstrou sempre dotes de liderança e rasgos de carisma.



"Recordo-me de um homem muito energético, só a entrada dele naquela camarata [de praticantes de enfermagem], quando vinha de onde vinha, assobiava e toda a gente sabia, despertava toda a gente, sabia-se que estava a entrar Samora", conta à Lusa Joaquim Chissano, que conheceu Machel quando era estudante liceal e que veio a tornar-se amigo, ministro dos Negócios Estrangeiros e sucessor do político na Presidência da República de Moçambique.

Recusou o curso de medicina, para assumir tarefas na guerrilha. Impôs-se como líder no primeiro grupo de guerrilheiros da Frelimo a ser treinado na Argélia, em 1963, e assumiu o comando do primeiro centro de preparação político-militar da frente, na Tanzânia, em 1964.

A informalidade e a aversão à burocracia, como narra Chissano, - durante a luta tratavam-se por "irmão"-, fizeram com que Machel resistisse, no princípio, à decisão da direção da Frelimo de que ele assumisse o cargo de chefe do Departamento de Defesa e Segurança, após o assassínio do responsável desta área, Filipe Samuel Magaia.



Machel mostrou os atributos de estratega militar, expandindo a guerra contra o colonialismo português, do norte para o centro e com o sul à espreita.

O pouco apego à solenidade e à vida de gabinete fez com que o primeiro chefe de Estado moçambicano começasse por negar a indicação para presidente da Frelimo, quando Eduardo Mondlane foi assassinado, a 3 de fevereiro de 1969, por uma bomba disfarçada num livro, em Dar-es-Salam.

Já na liderança máxima da frente, a perspicácia militar de Samora Machel foi decisiva para contrariar a operação "Nó Górdio" que o general português Kaúlza de Arriaga gizou com o intento de aniquilar a Frelimo.

A operação fracassou e Machel emergiu como um líder militar e político incontestável, afastando sem piedade as dissidências internas.

A indicação pela Frelimo de Samora Machel para Presidente moçambicano, em 1975, foi a consagração de um dirigente que firmou créditos subindo a pulso na hierarquia do movimento de libertação.
Quase sempre de camuflagem militar e apaixonado por discursos demorados à moda de Fidel Castro, muitas vezes utilizados para anunciar purgas internas, assumiu-se de forma direta admirador do marxismo-leninismo, dirigindo o partido na adesão formal a esta doutrina em 1977.

Internacionalista para uns, aventureiro para outros, enfrentou os poderosos vizinhos da Rodésia do Sul, atual Zimbabué, e do regime do "apartheid" na África do Sul, albergando e prestando apoio militar aos movimentos de oposição destes países.

A hostilidade declarada aos regimes racistas expôs Moçambique a ferozes campanhas de retaliação, que incluíram o patrocínio à Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), atual principal partido da oposição, que moveu uma guerrilha de 16 anos, apenas terminada em 1992, seis anos após a morte de Machel num desastre aéreo na África do Sul.

Recusou negociar a paz com "os bandidos armados da Renamo", mas almoçou com os dirigentes racistas sul-africanos nas margens do rio Incomáti, por ocasião de um acordo que impunha o afastamento de Pretória da guerrilha moçambicana e de Maputo do Congresso Nacional Africano (ANC), da África do Sul.

Frustrado com a falta de apoio dos aliados tradicionais do bloco comunista, já a soçobrarem a décadas de falhanço de políticas, Samora Machel não hesitou em iniciar a aproximação aos principais símbolos do "imperialismo" que tanto diabolizou, encontrando-se com o então Presidente norte-americano, Ronald Reagan, na Casa Branca, em plena guerra fria, e ordenando o seu governo o início de contactos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.
Encurralado pelo descalabro económico, encetou a revisão dos seus conceitos económicos, declarando que não fazia sentido o Estado vender agulhas, no que sinalizou como um passo para a abertura do sistema.
Com poses de "celebridade" nos comícios e conversas de ouvido em ouvido com membros do público, para várias organizações internacionais e algumas correntes internas, a Presidência de Samora Machel foi marcada por abusos dos direitos humanos, como os desterros em massa durante a "operação-produção", a humilhação pública de "colaboradores da PIDE" e por uma mão dura no combate a práticas considerada antirrevolucionárias, que levou a condenações a fuzilamentos dos que ele e o seu regime qualificavam como "inimigos do povo".

Revolucionário destemido e pragmático para muitos admiradores, ditador instável para os críticos, 30 anos após a sua morte, "Samora vive" em muitos moçambicanos, que o têm como "o Pai da Nação" e "Homem do Povo", como se pode ler nas janelas de muitos "chapas", transportes públicos privados usados pela maioria pobre das cidades moçambicanas.

FONTE:
http://24.sapo.pt/atualidade/artigos/samora-machel-30-anos-depois-as-causas-da-queda-do-aviao-presidencial-permanecem-um-misterio

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