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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

O assassinato de James Bulger

James Patrick Bulger estava a semanas de completar três anos e estava num shopping de Liverpool com a sua mãe. Dois meninos, Jon Venables e Robert Thompson, ambos de 10 anos, sequestraram, torturaram e mataram James. Seu corpo foi encontrado dois dias depois.
James era filho único. Sua mãe o descreveu como uma criança alegre e de sorriso contagiante. Fazia todos à sua volta sorrirem com suas frases e brincadeiras. Dois anos depois do incidente, Denise e Ralph se separaram.




Era  sexta feira, em 12 de fevereiro de 1993. Sua mãe, Denise, foi ao New Strand Shopping Centre, em Liverpool na Inglaterra. Ao entrar numa loja, ela se distrai. Nesse momento, dois meninos que estavam do lado de fora, percebem que James está brincando sozinho e o atraem para longe dela.

Câmaras de segurança detetam o momento em que os dois meninos se aproximaram de James e saíram de mãos dadas com ele. Venables e Thompson levaram James até um canal a 4 quilómetros do shopping. Lá, os meninos empurraram-no para o chão. James machucou a cabeça e o rosto. Continuaram andando pela cidade.
Nesse trajeto, eles foram vistos por 38 pessoas que assumiram que os três eram irmãos. Quem parou para perguntar recebeu a resposta de que eles estavam voltando para casa ou que eles estavam levando o menino para a polícia.



Eventualmente, chegaram a Walton, a 40 minutos de caminhada do shopping. Ao chegarem lá, os meninos avistaram um posto policial e ficaram com medo. Avançaram mais um pouco até a estação de trem Walton & Anfield que estava abandonada. Ali torturaram James.

Jogaram tinta azul, roubada de uma loja no caminho, nos olhos de James, agrediram-no e ainda jogaram pedras e tijolos no menino. Pilhas foram encontradas na sua boca.



Para finalizar os momentos de horror de James, Venables e Thompson atiraram uma barra de ferro de aproximadamente 10 quilos sobre a sua cabeça. No total foram 42 lesões e eram tantas, que nenhuma pode ser constatada como a fatal.



Não satisfeitos, os meninos amarraram o corpo de James no trilho de trem próximo para tentar fazer parecer um acidente. Quando o trem passou, seu corpo foi cortado ao meio. Dois dias depois, seu corpo foi encontrado por crianças que brincavam por ali.
Os suspeitos foram presos após Venables ser reconhecido por uma mulher.



Em novembro, Jon Venables e Robert Thompson foram considerados culpados do assassinato de James Bulger. Eles são os assassinos mais jovens da história a serem condenados. A pena era de que eles ficariam presos até a maioridade e depois seriam soltos com novas identidades, assim como suas famílias.



Quando completaram 18 anos, o governo lhes concedeu nova identidade e nova moradia. Pouco se sabe deles desde então. Apenas que Venables teve problemas com a justiça sob denúncia de pornografia infantil.



Os pais de James casaram-se novamente e tiveram outros filhos. Denise, hoje Fergus, criou o James Bulger Memorial Trust que ajuda crianças que foram vitimas de algum tipo de violência e dá assistência para seus familiares.

Fonte:
https://maringapost.com.br/ahduvido/o-assassinato-de-james-bulger-por-dois-garotos-de-10-anos/

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Conspirações: O Assassinato de John Kennedy

As seis teorias da conspiração sobre o assassinato de JFK

O monte relvado, o Homem do Guarda-Chuva, Lyndon B. Johnson e o pai de Ted Cruz

MICHAEL E. MILLER 

Alienígenas. Maçons. Mafiosos. Duplos. O Homem do Guarda-Chuva. Um trabalho interno.

Muito antes de existirem fake news, houve o assassinato do Presidente John F. Kennedy e a imensidão de teorias da conspiração que se lhe seguiram. Um autor estimou que os teóricos da conspiração acusaram “42 organizações, 82 assassinos e 214 outras pessoas de estarem envolvidas no assassinato”. Segundo um inquérito de 2013, 62% dos americanos acreditam que aconteceu algo mais do que apenas a acção de Lee Harvey Oswald, sozinho num sexto andar sobre a Dealey Plaza em Dallas.

Com o anúncio de Donald Trump de que pretende abrir ao público o lote final dos arquivos secretos sobre o assassinato, os historiadores e os teóricos da conspiração prepararam-se ansiosamente para analisar os registos.

Será que os documentos adicionarão combustível às teorias da conspiração que ardem há mais de meio século, ou irão pelo contrário privá-las de oxigénio de uma vez por todas?

Salvo alguma decisão em contrário de última hora por parte da Casa Branca, vamos descobrir rapidamente. Enquanto isso não acontece, eis algumas das mais prevalentes teorias da conspiração sobre o assassinato de JFK:



Múltiplos atiradores

Aquela que é talvez a teoria da conspiração mais duradoura de todas tem as suas origens não num qualquer lunático, mas na Câmara dos Representantes.

Uma semana após o assassinato, ocorrido a 22 de Novembro de 1963, o recentemente empossado Presidente Lyndon B. Johnson criou por ordem executiva a Comissão Presidencial Sobre o Assassinato do Presidente Kennedy – que ficou para a História como a Comissão Warren, nome derivado do seu presidente, o juiz do Supremo Tribunal Earl Warren.

Dez meses depois, a Comissão apresentou as suas descobertas: Oswald agiu sozinho, e o mesmo aconteceu com Jack Ruby, o empresário nocturno de Dallas que alvejou e matou Oswald dois dias após o assassinato de JFK.

Em 1976 – depois do caso Watergate ter abalado a fé dos americanos no governo e a exibição do filme de Zapruder ter permitido ao público ver o assassinato com os seus próprios olhos – a Câmara votou esmagadoramente a favor da criação de um comité que voltasse a investigar a morte de Kennedy, bem como a de Martin Luther King, assassinado em 1968.

Tal como a Comissão Warren, a investigação da Câmara dos Representantes não encontrou provas que implicassem a União Soviética, Cuba ou a CIA no assassinato de Kennedy. Contudo, o comité concluiu que “provavelmente” teria ocorrido uma conspiração, envolvendo um segundo atirador que estaria no infame “monte relvado”.

Essa hipótese foi desde então desacreditada, inclusivamente por reconstituições high-tech. Mas o mal estava feito.

A “grande contradição”, como lhe chamou um investigador de JFK, abriu a porta ao desenvolvimento de outras teorias da conspiração.

O Homem do Guarda-chuva

A mais famosa teoria que envolve múltiplos atiradores centra-se no “Homem do Guarda-Chuva”: uma figura vista a segurar misteriosamente um guarda-chuva preto no soalheiro dia do assassinato de Kennedy. Houve quem tenha especulado que o Homem do Guarda-Chuva disparou um dardo venenoso em direcção ao pescoço do presidente, imobilizando-o para permitir que Oswald, ou outros, disparassem o tiro mortal.



O filme JFK, de 1991, realizado por Oliver Stone e que alimenta as teorias da conspiração, mostra o Homem do Guarda-Chuva a fazer sinais aos seus cúmplices.

A realidade, no entanto, revelou-se bastante mais banal. Em 1978, 15 anos após o assassinato, Louie Steven Witt declarou perante o comité da Câmara dos Representantes que levara o guarda-chuva para provocar o presidente, não para o matar.

“Em algum momento a prova 405 conteve uma pistola ou arma de qualquer tipo?”, perguntou-lhe Robert Genzman, membro do comité, enquanto a audiência comparava o guarda-chuva de Witt com os diagramas de mecanismos secretos que disparavam dardos, ou balas, que os teóricos da conspiração haviam apresentado.

“Este guarda-chuva?”, perguntou um atónito Witt.

“Sim.”

“Não.”

Witt afirmou nem sequer ter tido conhecimento das teorias da conspiração relacionadas com o seu guarda-chuva até vários anos depois do assassinato, e que o guarda-chuva não passava de uma “piada sem graça” dirigida ao pai de Kennedy que tinha corrido monumentalmente mal (o guarda-chuva preto era a imagem de marca de Neville Chamberlain , primeiro-ministro britânico que tivera uma postura branda relativamente ao regime nazi, e que fora apoiado por Joseph Kennedy)

Umbrella Man, documentário de 2011 de Errol Morris, explora a maneira como, sob atenção microscópica, as coisas mais inócuas podem parecer sinistras.

“Se o Livro de Recordes do Guiness tivesse uma categoria para pessoas que fazem a coisa errada no momento errado no sítio errado, eu estaria em primeiro lugar”, disse Witt ao comité, “e a longa distância do segundo classificado.”

Um trabalho interno

Outra crença persistente é que as autoridades americanas estiveram de alguma forma envolvidas. Uma das teorias afirma que o tiro fatal foi disparado pelo motorista do carro de Kennedy, ao tentar disparar contra Oswald.

“Se olharmos para uma cópia de má qualidade do filme de Zapruder, parece que William Greer, o condutor, se vira e por cima do ombro dá um tiro na cabeça de Kennedy”, disse ao The Daily Beast John McAdams, autor de JFK Assassination Logic: How to Think about Claims of Conspiracy.

“Mas a verdade é que as suas mãos estão o tempo todo no volante; só nas cópias muito más do filme de Zapruder é que parece que não é assim.”

Uma teoria da conspiração mais generalizada é que a CIA – e até Lyndon B. Johnson – estiveram abominavelmente envolvidos.



Embora especialistas a tenham descartado como “ridícula” e “forçada”, essa teoria assumiu um papel central no filme de Oliver Stone. E foi também defendida por outro Stone: Roger Stone, o consultor político e confidente de Trump que persuadiu o presidente a abrir o acesso aos documentos sobre o caso.

“Percebo que mergulhar no mundo da pesquisa sobre o assassinato e da hipótese de uma conspiração possa levar a que olhem para mim como um extremista ou um lunático, mas os factos que eu descobri são tão convincentes que não me resta alternativa senão afirmar que Lyndon Baines Johnson foi o responsável pela morte de John Fitzgerald Kennedy, de modo se tornar presidente e a evitar o precipício político e legal em que estava prestes a cair”, escreveu Stone em The Man Who Killed Kennedy: The Case Against LBJ, publicado em 2013 e da co-autoria de Mike Colapietro.

(O livro, que acusa Johnson de cumplicidade em pelo menos seis outros assassinatos, cita também Richard Nixon, antigo chefe de Stone, que terá afirmado: “Eu e Lyndon queríamos chegar a Presidente, a diferença é que eu não seria capaz de matar por isso.”)

Sean Cunningham, professor de História da Universidade Texas Tech, diz que não há provas que sustentem essa teoria.

“Johnson dá uma boa história e serve de explicação fácil”, afirmou ao The Daily Beast.

Cubanos e soviéticos

De todas as teorias de conspiração em torno do assassinato de Kennedy, esta é a mais provável de ser impulsionada ou desmentida pelos documentos que serão brevemente divulgados.

Como relatado por Ian Shapira, do The Washington Post, os especialistas acreditam que muitos dos 3 100 documentos anteriormente inéditos se relacionam com a viagem de seis dias que Oswald fez à Cidade do México, dois meses antes do assassinato. Alguns crêem que Oswald recebeu ordens de agentes soviéticos ou cubanos enquanto lá esteve.

Oswald tinha emigrado para a União Soviética em 1959, onde ficou dois anos e meio antes de retornar aos Estados Unidos, quando a sua dissidência já não era notícia. Em Setembro de 1963 viajou para a capital mexicana, tendo visitado as embaixadas cubana e soviética, aparentemente numa tentativa de se mudar para um dos países comunistas.

“Um oficial soviético que Oswald alegadamente contactou, Valeriy Kostikov, não era um simples oficial do KGB, pertencia também ao Departamento 13 do KGB, que o relatório da CIA descreve como ‘o departamento encarregado da sabotagem e dos assassinatos’, escreveu o Post em 1993, altura em que foi revelado um outro lote de documentos secretos.



Os historiadores estão assim muito interessados em saber o que o último lote de ficheiros irá revelar sobre os movimentos e encontros de Oswald na Cidade do México.

“Sempre considerei a viagem ao México o capítulo oculto da história do assassinato. Muitas versões saltam esse período”, disse a Shapira Philip Shenon, ex-repórter do New York Times e autor de um livro sobre a Comissão Warren. “Oswald andava a encontrar-se com espiões soviéticos e cubanos, e a CIA e o FBI tinham-no sob vigilância apertada. Não dispunham o FBI e a CIA de provas cabais de que ele era uma ameaça antes do assassinato? Se tivessem agido com base nessas provas, talvez não tivesse acontecido o que aconteceu. Essas agências podem estar com medo de que, se os documentos forem revelados, a sua incompetência e os seus erros sejam expostos. Eles sabiam o perigo que Oswald era, mas não alertaram Washington.”

Segundo algumas teorias, as agências secretas americanas sabiam do plano de Oswald, e deixaram que este se concretizasse porque queriam Kennedy fora de cena.



A CIA e o FBI investigaram o suposto envolvimento cubano e soviético, mas não encontraram nada. E tanto a Comissão Warren como o comité da Câmara dos Representantes descartaram esse possível envolvimento. Os próprios especialistas torcem o nariz a esta hipótese, apontando para o facto de que ambos os países consideravam ser mais fácil trabalhar com Kennedy do que com o seu vice-presidente.

Uma outra teoria da conspiração defende que, quando Oswald se mudou para a União Soviética, o KGB treinou um duplo que assumiu a sua identidade e matou Kennedy. O homem por trás dessa hipótese chegou a conseguir convencer a viúva de Oswald a dar-lhe autorização para exumar os restos mortais, o que veio a acontecer a 4 de Outubro de 1981. A equipa que analisou o corpo concluiu, “para além de qualquer dúvida”, que era efectivamente Lee Harvey Oswald quem estava enterrado no cemitério Rose Hill, em Fort Worth.

A máfia

Nos dias que se seguiram ao assassinato do seu irmão, Robert Kennedy teve a sensação horrível de que o acontecido era culpa sua.

De acordo com o biógrafo Evan Thomas, “Robert Kennedy estava convencido de que, de alguma forma, era responsável pela morte do irmão. Que as suas tentativas de levar a máfia a tribunal e de matar Fidel Castro eram a causa, que tudo lhe tinha explodido nas mãos, como costuma dizer o pessoal das secretas.”

Não há, no entanto, quaisquer provas do envolvimento do crime organizado no assassinato do Presidente e, mais uma vez, os especialistas rejeitam essa possibilidade.



Ralph Salerno, ex-detective da polícia de Nova Iorque que investigou o envolvimento da máfia no âmbito da averiguação do comité da Câmara dos Representantes, disse ter analisado “milhares de páginas de vigilância electrónica sobre líderes do crime organizado, por todo o território dos Estados Unidos" relativas à altura do assassinato, sem ter ouvido nada que considerasse suspeito.

O pai de Ted Cruz

Se há alguém que gosta de uma boa teoria da conspiração, esse alguém é Donald Trump. E o então candidato não se coibiu de, no ano passado, dar à Fox News a sua visão sobre o que se passou.

Trump, que estava nesse momento a discutir com o senador do Texas Ted Cruz a nomeação presidencial do Partido Republicano, alegou que o pai do seu oponente, Rafael Cruz, tinha sido visto com Oswald pouco antes do assassinato.



“O pai dele esteve com Lee Harvey Oswald pouco antes de ele ter sido morto”, disse Trump numa entrevista por telefone. “Toda a situação é ridícula! O que é isto? Não tenho razão? Antes de ele ter sido morto. E ninguém fala nisso. Toda a gente sabe, e ninguém fala disso!”

Aparentemente, Trump estaria a referir-se a um artigo de Abril de 2016 da National Enquirer, que tinha como título Pai de Ted Cruz Ligado ao Assassinato de JFK! O artigo estava acompanhado por uma fotografia que, segundo o tablóide, mostrava Oswald e Rafael Cruz a distribuírem panfletos pró-Castro em Nova Orleães em 1963.

Mesmo depois de garantir a nomeação, Trump manteve a amplamente desacreditada história.




“Tudo o que fiz foi ressalvar o facto de que, na capa da National Enquirer, há uma fotografia dele [Rafael Cruz] e do maluco do Lee Harvey Oswald a tomarem o pequeno-almoço”, afirmou Trump. “Não tive nada a ver com isso. Estamos a falar de uma revista que, francamente, devia ser muito mais respeitada. Apanharam o O.J. Apanharam o [John] Edwards. Apanharam isto. Quer dizer, se fosse o New York Times, teria ganho o prémio Pulitzer.”

FONTE:
https://www.publico.pt/2017/10/26/mundo/noticia/as-seis-teorias-da-conspiracao-sobre-o-assassinato-de-jfk-1790429



quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Padre Max e Maria de Lurdes Correia



No hospital perguntaram-lhe o que se passara. Ele respondeu:
– Colocaram-me uma bomba no carro e agora está a arder, mas não faz mal. É esta a democracia portuguesa.
De seguida, entrou em coma. Faleceu às seis horas e vinte minutos do dia 3 de Abril de 1976. Tinha 32 anos e dizia que não chegaria à idade de Cristo.
O atentado contra o Padre Maximino Barbosa de Sousa (Padre Max) e a sua aluna Maria de Lurdes Correia deu-se no dia anterior, ainda antes da meia-noite, em Vila Real, na estrada que liga esta cidade à freguesia da Cumieira. Uma bomba sofisticada, comandada à distância, pôs fim à liberdade de expressão de um sacerdote que, com toda a legitimidade, acreditava que um outro mundo seria possível, menos cruel com os pobres, na linha da sua interpretação que fazia do Evangelho. Maria de Lurdes teve morte imediata à explosão.
O Padre Max aceitara ser candidato como independente nas listas da UDP pelo círculo de Vila Real nas eleições para a Assembleia da República, marcadas para o dia 25 desse mês. A jovem, que fora aluna do padre e que passou entretanto a dar aulas com ele à noite, para estudantes-trabalhadores, era uma entusiasta militante da UDP.



O crime da Cumieira ficou impune. A bem dizer, está esquecido, graças ao manto de silêncio que cobre o caso, graças a estranhas cumplicidades e acordos. À direita e à esquerda. São poucas hoje as pessoas que aceitam falar no assunto. Os mais corajosos (muito poucos) temem processos por difamação. 
Atribuir a autoria dos assassinatos aos “fascistas” é muito pouco. Lembrar o Padre Max e a Maria de Lurdes em datas sonantes pode ser um gesto inegável de boas intenções, mas, já que não é possível punir os criminosos, prestar “culto” às vítimas, só para “consumo interno”,  retarda o necessário esclarecimento quanto aos factores políticos, culturais e sociológicos que levaram ao recurso ao homicídio contra dois alvos quietos.
A nosso ver, a bomba da Cumieira foi um crime do “Estado democrático” contra o próprio “Estado democrático”.



Vejamos:
O sonho revolucionário do “Portugal vermelho” terminara cinco meses antes, com o 25 de Novembro de 1975, e com a consequente prisão e fuga para o estrangeiro de militantes revolucionários. Para a concretização deste objectivo – da chamada “normalização democrática” –,  os ditos “partidos moderados”, o Conselho da Revolução, o Grupo dos Nove, alas militares e até alguma da extrema-esquerda dissidente tinham-se aliado a gente da pior espécie, numa panóplia de gostos e objectivos: admiradores  convictos do Estado Novo e da ordem católica ultra-conservadora, antigos elementos da PIDE/DGS, operacionais da rede bombista de extrema-direita (exemplo: MDLP), membros de instituições do Estado e, sobretudo  e em perfeita ligação àqueles, grupos de indivíduos que tinham sede de poder e de dinheiro,  muitos deles vindos das antigas colónias e que eram hábeis em tráficos e armas. Estes ligavam-se àqueles, não com interesses meramente ideológicos, mas manipulavam o “lirismo fascista” dos primeiros; gente que vestia fato branco, óculos de sol,  brilhantina no cabelo, dirigentes desportivos com ambição a lugares em autarquias, conduziam carros topo de gama, gente que tinha vindo do nada e que se tinha associado a gente poderosa, entre falências e vigarices,  e que se preparava para introduzir o tráfico em Portugal a partir de África e de alguns países da Europa. Tinham aprendido com outros que, mesmo mal formados e  mal alfabetizados, seria possível enriquecer de qualquer maneira. Eram os “novos-ricos” – o novo capitalismo –, já que os velhos monopólios tinham sido desarticulados na noite de 11 de Março de 1975. Acreditavam, muitos dos nossos “democratas”, que estes cidadãos iriam fazer o “milagre económico”, de recuperação do país, em que, por ironia do destino, iria assentar o Estado Social de Abril.
Esta gente, de facto, tinha feito o “trabalho sujo” no chamado Verão Quente de 75, com o assalto e incêndio a sedes de partidos de esquerda no Norte, atentados à bomba, mortes, a chamada “Matança da Páscoa”, a “Maioria Silenciosa", etc… etc… Conquistada a “normalidade democrática”, por obra e graça destes grupos, estes passaram a exigir um espaço próprio no novo xadrez social, numa guerra interna de interesses  que fazem lembrar os grupos de descontes no seio da Nobreza e do Clero na Idade Média. Aliás, esta “aliança” aconteceu em muitas das democracias de estilo ocidental. Por exemplo, com o fim do antigo regime da URSS e a abertura ao estilo ocidental, as redes mafiosas do Leste fazem parte do “milagre económico” daquela região do mundo.



E que teve o Padre Max a ver com isso?
Nada! Completamente nada!
Maximino era um revolucionário… Mais revolucionário cultural do que político-partidário. Em França bebeu as ideias do Maio de 68; no Evangelho encontrou a opção preferencial pelos pobres. Encantava a juventude com o seu dinamismo. Romântico nas ideias, utópico na sua visão do mundo, pus em causa todo o conservadorismo, dizia o que pensava, vestia calças de ganga, transportava os alunos no seu carro, recusava o habitual estatuto de “abade”… Uma pessoa assim pode ser muito inconveniente, mas não é má pessoa… O padre Max não era bombista, não acreditamos que quisesse a ditadura do proletariado. Tinha um conceito de democracia mais avançado do que muitos, o da participação directa dos cidadãos. Mesmo ameaçado, estava consciente dos perigos que corria, amava a vida e o semelhante de igual forma. Um homem assim é grande demais para caber num partido ou numa religião. Fosse ou não versejador, o Padre Max era um poeta. Geneticamente falando. Trazia a Utopia nas veias. Ao longo da História, foram estas pessoas que fizeram andar o mundo e a Humanidade.



Se Maximino tivesse concorrido pelo PCP, certamente, não o teriam escolhido para a morte. Não estariam interessados em fazer um “mártir” de um partido bem organizado, com força no país suficiente para fazer do caso uma nova “Catarina Eufémia”, desta vez em Trás-os-Montes.
Escolheram um homem que apoiava um partido pequeno. Como tal, foi mais fácil não se descobrir a verdade. Escolheram o Padre Max como poderiam ter escolhido outra figura carismática, com o objectivo de demonstrarem ao Estado que, afinal, aqueles que tinham sido usados pelas “forças moderadas” para o “trabalho sujo” contra os revolucionários tinham, agora, capacidade e força suficiente para matar quem quer que fosse e da forma mais aparatosa. Escolheram um revolucionário; para outra vez, escolheriam uma figura mais próxima do sistema. Encerrar-lhes definitivamente as portas poderia desencadear mais atentados, mais mortes, e a “normalização democrática” voltaria estar em causa.

Diário de Felgueiras

FONTE:
http://josecarlospereira.blogspot.pt/2011/04/porque-mataram-o-padre-max.html

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