IMPERDIVEL

Mostrar mensagens com a etiqueta Timor. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Timor. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

MAUBERE

Maubere é uma palavra com origem no dialecto mombar, da parte ocidental de Timor-Leste, onde se usava como nome próprio. E como era de uma zona mais pobre, ainda no tempo colonial português, provinham daí muitos dos empregados domésticos ("mainatos") da tropa e das famílias mais abastadas de timorenses. Chamavam-lhes indistintamente mauberes, que significava criado, estúpido, zé-ninguém, atrasado, burro; "bimbo", como se diz também em Portugal.

Daí a conotação pejorativa sentida por muitos timorenses, como, por exemplo, o bispo de Díli, Ximenes Belo. Numa entrevista já antiga à emissora portuguesa TSF (in semanário "O Jornal", já extinto), insurgia-se deste modo: "Quando nos chamam mauberes, insultam-nos. Nós não somos zé ninguéns nem estúpidos! Este é um termo insultuoso para os timorenses."



Mário Carrascalão, governador de Timor já depois da ocupação indonésia, perfilha o mesmo ponto de vista: "Em Timor, chamar maubere a uma pessoa é insultá-lo. Chama-se maubere ao indivíduo burro, ao que não percebe nada, analfabruto, como se diz em Portugal." (jornal "Oriente", de Macau, 1985).

Mas há outros timorenses que defendem opinião exactamente contrária. Era o caso de Fernando Sylvan, ex-presidente da Sociedade da Língua Portuguesa, já falecido, que, a propósito, discorria assim sobre a evolução semântica das palavras, em geral: «Hoje, ninguém diz que o nome cristão tem o sentido pejorativo que lhe atribuíam, no século II, os cobradores de impostos quando se referiam aos 'seguidores da Via' (termo com que eram designados os cristãos no século I).» Com maubere, dizia ele, acontecera até uma evolução positiva: "É já do domínio da universalidade política. A ONU e UNESCO já o consagraram."



José Ramos Horta passa por ser o responsável desta verdadeira querela linguística entre os timorenses, quando adoptou politicamente a palavra maubere aos propósitos independentistas da Fretilin. Foi logo a seguir ao 25 de Abril de 1974. Dez anos mais tarde, Guilhermina Araújo, da Fundação Borja da Costa, refere-se-lhe como um «termo elogioso, memória do povo oprimido, guardião das tradições», num pingue-pongue de outras, e mais sérias, discórdias.

"É ofensivo, divide os timorenses. É uma questão politizada pela esquerda», dizem uns. «Só uma posição colonialista no subconsciente é que poderá escandalizar-se com o termo maubere atribuído aos timorenses», respondem do outro lado.

Por isso, caro consulente, faça como eu: continue a apoiar os timorenses e a sua causa, "congelando", pura e simplesmente, a palavra que mais os divide…

Fonte:
https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/maubere/14485

sábado, 16 de dezembro de 2017

Massacre no Cemitério de Santa Cruz - Imagens recolhidas recolhidas pelo jornalista inglês Max Stahl

Massacre no Cemitério de Santa Cruz - Dili - Timor Lorosae

MASSACRE EM TIMOR LOROSAE

TERROR NA ILHA DE LAFAEK

Holandesa conta como conseguiu fazer chegar às televisões de todo o mundo as imagens do massacre no cemitério

Dois dias depois do massacre de Santa Cruz, a 14 de novembro de 1991, Saskia Kouwenberg coseu duas cuecas uma à outra, arranhou o interior do nariz até chorar e deixou cair sangue no tecido, que escondia um documento vital.

A 'bolsa' improvisada pela holandesa, manchada de sangue, tinha no seu interior a cassete com as imagens do massacre no cemitério de Santa Cruz, recolhidas pelo jornalista inglês Max Stahl e que, para muitos marcaram um momento de viragem na questão de Timor-Leste.



Foi uma medida preventiva. Saskia Kouwenberg, que aceitou pela primeira vez contar a história, explicou à Lusa que o conteúdo da cassete que transportou de Díli tinha que chegar às televisões de todo o mundo.
Pensando que a sua bagagem poderia ser revistada - e contando com os eventuais preconceitos muçulmanos caso isso acontecesse -, Kouwenberg, que conversou com a Lusa a partir de Amesterdão, queria garantir que as imagens não seriam descobertas.

"Pedi a um jornalista que me arranjasse agulha e linha. Eu uso sempre cuecas enormes. Confortáveis mas enormes. Arranhei tanto o nariz que até chorei. E enchi as cuecas de sangue, e depois cozi duas e meti a cassete lá dentro e fui para o aeroporto", recordou.

Envolvida no movimento pacifista da década de 1980 teve o primeiro contacto com os timorenses em Darwin, norte da Austrália, para onde se mudou com o marido no início dos anos 1990.

A proposta visita de uma delegação parlamentar portuguesa a Díli, em outubro de 1991 fez aumentar o interesse à volta da situação em Timor. Como a visita coincidia com uma viagem que Saskia e o seu marido na altura, Russell, deveriam fazer à Europa, decidiram incluir uma passagem por Díli.



"Na altura disseram que ia ser muito difícil entrar, que não íamos conseguir. Mas conseguimos entrar. Só que a visita da delegação acabou por ser cancelada e tudo entrou em colapso", recorda.

O Governo indonésio rejeitou a inclusão na delegação - de que fariam parte 12 jornalistas - da jornalista australiana Jill Jolliffe, considerada próxima da resistência, e Portugal recusou manter a visita se esta fosse excluída.

"Isso gerou pânico em Timor. Muitas pessoas e muitos jovens tinham-se preparado para visita e queriam, a todo o custo, falar com eles", recorda Saskia, uma dos sete ou oito estrangeiros que estavam em Díli na altura.

A tensão aumentou e a 28 de outubro tropas indonésias e elementos pró-integracionistas atacaram um grupo de jovens que estava na Igreja de Motael a preparar manifestações para receber a delegação parlamentar, de que resultou a morte do jovem pró-independentista Sebastião Gomes e do pró-integracionista Afonso Henriques.



A 12 de novembro realiza-se uma missa e cerimónia em homenagem de Sebastião Gomes e milhares de pessoas dirigem-se de Motael até ao cemitério de Santa Cruz.

Durante o percurso alguns abriram cartazes e faixas de protesto. As forças indonésias respondem com extrema violência, matando mais de 250 pessoas.

Um ativista neozelandês, Kamal Bamadhaj, foi morto, dois jornalistas foram espancados, os americanos Amy Goodman e Allan Nairn, e as imagens foram registadas pelo jornalista inglês Max Stahl.
Nesse dia Saskia estava como uma grande dor nas costas, que praticamente não a deixava movimentar-se. Gravou algumas imagens, ainda na igreja, e regressou ao Hotel Díli, onde estava hospedada.

"Quando saí de novo vi que a cidade estava praticamente deserta e comecei a perguntar o que tinha acontecido. Estavam pessoas escondidas em vários locais que disseram que tinha acontecido algo muito mau", contou.

"Nessa noite falei com o Max que disse que tinha escondido o filme no cemitério. Ele foi lá buscá-lo e, depois a questão era quem tirava o filme de Timor. Eu ofereci-me porque não tinha sido vista em Santa Cruz", explica.

Primeiro tentou com o Relator Especial da ONU para Direitos Humanos e Tortura, Pieter Kooijmans, que estava em Díli a quem pediu se podia levar a cassete.

"Ele disse que não. Estava borrado de medo. Falei também com a Embaixada holandesa. Ninguém acreditava que isto tinha acontecido", disse.

Retirar a cassete com as imagens de Timor-Leste, recorda, foi uma espécie de "filme B" que começa no aeroporto onde chega, no dia seguinte, com o seu marido e o americano Steve Cox, e é informada de que o voo estava cheio.

"Eu corri para o avião a dizer que tinha que sair. Os militares tentaram tirar-me das escadas. Estava aos gritos. E enquanto isto estava a decorrer o Kooijmans passou por mim e fez que não me conhecia", disse.

"Depois de muitos gritos e discussão deixaram-me entrar com o Steve Cox e o Russell. E quando chegámos vimos que havia mais lugares vazios. Foi uma situação muito tensa", disse.

Os seus companheiros de viagem saíram em Kupang, Timor indonésio, e Saskia continuou até Bali onde se misturou com turistas enquanto esperava ligação para Jakarta.

Ali, depois de uma conversa de uma hora entre o embaixador e as autoridades indonésias, acabou por passar pela zona VIP, sendo levada para um quarto na missão diplomática de onde não pode sair.

"Eles insistiam que eu entregasse tudo o que tinha comigo. Diziam-me que eu não ia conseguir sair com o filme. Pensei e dei-lhes um pacote que disse que só podiam entregar ao charge d'affairs - que eu sabia que estava fora. Eles pensaram que era a cassete mas era só uma cópia do livro Exodus", conta, sorrindo.

Coze as cuecas e prepara-se para nova viagem para o aeroporto antes do voo para Amesterdão. Apesar do medo e de mais negociações com as autoridades indonésias é levada de carro à porta do avião e embarca, sem que a sua mala seja sequer revistada.

"Passam quatro dias entre sair de Díli e estar em segurança. Na Holanda tive que dar o filme aos donos que tinha contratado Max Stahl. Eu queria que o filme fosse transmitido nessa mesma noite porque ainda havia a controvérsia porque a Indonésia negava que tinha havido um massacre em Timor", disse.

"Eles insistiam que as imagens eram para usar num documentário. E eu recusei-me a entregar a cassete. Pedi primeiro à televisão holandesa que fizesse uma cópia. E essas foram as imagens transmitidas na noite de sábado 16, cinco dias depois do massacre", recorda.

Um momento crucial para Timor-Leste, quer pelo reconhecimento internacional que o problema assumiu mas, destaca, pelo impacto que as imagens tiveram em Portugal.

"Até Santa Cruz havia tanta negação na comunidade internacional sobre o que estava a acontecer. E aqui tínhamos um exemplo em que os indonésios diziam que nada tinha acontecido, e as imagens mostraram o contrário, que algo grande tinha ocorrido", disse.

"Essas imagens fizeram uma grande diferença especialmente em Portugal. Porque as pessoas na capela e no cemitério estavam a rezar em português. E em poucos dias todas as casas em Portugal acenderiam velas por Timor, comprometendo-se a não abandonar Timor de novo", afirmou.

Fonte:
https://www.dn.pt/mundo/interior/imagens-do-massacre-de-santa-cruz-sairam-escondidas-dentro-de-roupa-interior-5493186.html

Destaques

Maria Lamas (Torres Novas, 1893 - Lisboa, 1983)

Maria Lamas  Nasceu no fim do século XIX (1893), numa pacata vila da província portuguesa do Ribatejo, em Torres Novas, e viveu quase t...

NOVIDADES EBAY